
Eu morei alguns anos em Curitiba e tive um chefe (que também era carioca) muito brincalhão. Tinha um astral ótimo e vivia mexendo com todo mundo dentro da empresa. Nós trabalhávamos com o atendimento a usuários de uma concessionária de rodovia e tinhamos contato com todo o tipo de gente. Apesar de brincalhão, meu chefe sempre foi muito profissional e respeitoso com os usuários que nos procuravam para fazer reclamações, sugestões ou qualquer outro tipo de contato sobre os serviços da empresa.Um dia, um usuário, não muito comum, nos telefonou para fazer a reclamação de que tinha sido destratado por um funcionário. Imediatamente, me prontifiquei a ouvi-lo, ou ouvi-la, pois o usuário era um travesti que trabalhava ao longo da rodovia e queria formalizar a reclamação. Essa história já havia sido passada para o nosso departamento oralmente por outros funcionários que haviam presenciado a ocorrência. Após relatar a sua história, o incomum usuário me questionou sobre as providências que seriam tomadas. Eu informei que iria encaminhar a reclamação para o responsável e que iríamos retornar o contato para informar. Ele, ou ela, se exaltou e queria saber quais providências seriam tomadas de imediato e pediu para falar com um superior. Como eu não tinha poder de decisão, informei que iria transferir a ligação para o meu chefe. Ao transferir a ligação, eu disse ao meu chefe o nome do usuário e que ele queria falar. Só que ele, ou ela, me passou o seu nome de guerra e meu chefe atendeu a ligação de imediato. O que eu não tive tempo foi informá-lo de "quem" se tratava. O outro rapaz que trabalhava comigo, e ouviu a conversa, começou a rir e achou que eu estava passando um trote para o meu chefe. Eu corri na sala para avisar ao meu chefe quem era, mas ele já estava bastante concentrado na conversa. Nós só ouvíamos "sim, senhora", "não, senhora", "a senhora me permite...". Ele tentava de todo o jeito explicar para a "senhora" os procedimentos tomados em relação as reclamações. Ao perceber que "ela" insistia muito em acusar ao funcionário que ele conhecia e sabia que ele não faria aquilo em circuntâncias normais, ele começou a defendê-lo e a expor as qualidades e integridade do acusado. Vendo que o chefe defendia o acusado, o traveco soltou um sonoro "-Você dá o seu c... para ele. Vai se f..." e bateu o telefone. Naquele momento, meu chefe ficou desconsertado e lembrou da história, ligando o fato ao telefonema. O chefe, enfurecido, foi me procurar para tomar satisfações sobre aquela ligação. Eu e o outro funcionário estávamos do lado de fora do prédio, as gargalhadas, por causa da história e não conseguíamos parar de rir. Realmente, ele achou que eu tinha feito uma pegadinha com ele. Resumindo, ele xingou a todos nós, mas também sentou para rir e curtir essa "confusão". Já se passaram 6 anos desde esse evento, mas sempre recordamos do fato em nossos encontros.